08 de janeiro de 2020

pensamentos sobre ficciones

ano passado eu li Ficciones, uma coleção de contos do Jorge Luis Borges lançada em 1962, e gostei bastante. dentre as coisas que chamaram a minha atenção, está o fato de que grande parte dos contos são críticas de obras fictícias. por exemplo: em "An Examination of the Work of Herbert Quain", Borges (escrevendo como ele mesmo) examina em detalhes as obras de um autor chamado Herbert Quain, discutindo a originalidade de suas obras e a má recepção que elas tiveram. a parada é que Quain não existe, e nunca existiu. diversos dos contos do livro são assim.

eu achei muito engraçado. na minha cabeça, é como se Borges estivesse dando uma ideia e falando "não seria legal se isso existisse?". é óbvio que seria legal, Borges! a questão é que dar ideia é fácil, a execução que é difícil. Borges parece um malandrinho, tentando pegar só a parte fácil e fugindo da difícil. eu rio porque sinto que ele também está rindo, nem que seja um pouco.

é claro, essa é só uma análise de meia tigela. em primeiro lugar, eu não li nenhum outro livro do Borges, e não duvido que ele seria capaz de executar muitas das ideias - e pelo que vi, aparentemente ele executou. em segundo lugar, as ideias são boas, e não é fácil ter ideias tão boas assim: o conceito da biblioteca de babel como conhecemos hoje foi consolidado por Borges, e tlon, uqbar, orbis tertius ainda é a go-to história pra falar sobre worldbuilding.

ainda assim eu me peguei rindo, e foi uma das principais coisas que tirei do livro quando li.

mas recentemente, passei por uma situação que me fez ver Ficciones com outros olhos.

enquanto eu estava escrevendo anotações sobre exploração, em um dado argumento me vi inclinado a usar um exemplo de Dear Tesla, um trashgame de exploração dieselpunk que joguei há alguns anos atrás. me lembrei de uma mecânica do jogo em particular que me ajudaria a provar um ponto, e ao re-baixar o jogo pra tirar a screenshot, me surpreendi ao descobrir que aquela parte do jogo era totalmente diferente de como eu me lembrava. de fato, ela não servia nem um pouco pro exemplo que eu queria! isso me deixou com uma pulga atrás da orelha: de onde que eu tinha tirado aquela memória tão vívida, palpável, de que você conseguia atravessar a locomotiva fazendo uma sequência de coisas específicas?

então eu tive um palpite, e fui reler meu dream journal, procurando páginas da época em que eu me lembrava de ter jogado o jogo. bingo! eu tinha sonhado com aquela cena. o jogo não tem um segredo na locomotiva, foi pura invenção do meu cérebro.

e agora? eu teria de buscar outro exemplo, é claro (foi o que eu fiz). mas eu me peguei pensando: importa? a minha descrição da cena seria suficiente pra passar a ideia pro leitor, e muito provavelmente ninguém nunca jogaria o jogo pra confirmar se aquela cena existia ou não. se botarmos a moralidade de lado e falarmos apenas da função do texto de passar uma ideia, eu acho que o exemplo seria bem sucedido. é claro, o exemplo seria igualmente bem sucedido se eu não o atribuísse a nenhum jogo em específico, e começasse a frase com "vamos supor que num jogo hipotético...". mas ainda assim, sinto que seria uma mera formalidade. a verdade é que se eu tivesse deixado a referência ao jogo no texto final, ninguém ligaria.

e naquele momento, eu me senti um pouco mais próximo de Borges. talvez, ao discutir uma obra, ela seja irrelevante.