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1º de outubro, 2021

ruas vazias e pessoas-fantasmas

pensamentos sobre 'a vida modo de usar'

são seis horas da noite e eu estou andando sozinho no meio de uma rua escura, toda amarelada com a luz dos postes. casas e prédios baixos se estendem dos dois lados, silêncio; cachorros latem ao longe, carros distantes, um talher batendo num prato. é como se eu fosse um fantasma visitando minhas memórias, ou o contrário, como se eu estivesse andando por uma vizinhança fantasma.

eu olho pelas janelas mas não vejo ninguém - as janelas dos prédios são muito altas, e as casas parecem estar vazias. apesar disso tenho certeza que a rua não está nem um pouco vazia, e que por trás de cada parede tem uma família diferente vivendo a sua própria vida, completamente ignorante à minha presença. o estranho contraste me deixa arrepiado.

eu paro na frente de uma casa, e tento realmente absorver a sua existência. meus pensamentos vão imediatamente pro punhado de casas que morei ao longo da minha vida - um apartamento em madureira, um sítio em maricá -, e percebo que apesar dessas casas serem importantes pra mim, pras outras pessoas elas são tão anônimas quanto essa casa para a qual olho agora. não um lugar, mas um monte de tijolos com uma placa de 'cão bravo' e uma estátua de gnomo; nenhuma memória, nenhum sentimento forte, apenas objetos no mundo.

quando eu era um pré-adolescente ateu toddynho e estava ansioso com alguma coisa, eu tentava pensar que nenhum dos meus problemas importava no grande esquema das coisas, e que eram pensamentos de uma formiguinha no meio de uma pedra flutuando no cosmos. a ideia era que essa perspectiva me tranquilizasse, mas pra minha enorme frustração não adiantava de quase nada - eu simplesmente não conseguia internalizar essa tal insignificância. "como assim meus problemas são pequenos? eles são grandes, bem grandes, os maiores possíveis!" a ideia funcionava no papel, mas era difícil trazer pro emocional a verdade que eu conhecia racionalmente (ainda é, nesse e em muitos outros casos). ficar pensando em 'cosmos' e 'pedras' não ajudava muito.

mas olhando pra essa casa, eu sinto a verdade clara e óbvia: que enquanto eu estou aqui, olhando pra essa casa igual um psicopata, pode ter alguém olhando pra minha casa e sentindo a mesma coisa: absolutamente nada.

todo dia é o casamento de alguém. todo dia é o enterro de alguém. todo dia é o nascimento de alguém. todo dia é especial de alguma forma pra alguém no mundo, e a beleza disso é o contrário, todo dia especial pra você é apenas mais uma terça-feira para a maioria dos outros seres humanos. eu não preciso me sentir como uma formiga, posso continuar sendo eu; basta trocar o zoom out espacial por um cronológico, e ver as infinitas linhas paralelas totalmente dessincronizadas.

no fundo, surgem pensamentos de um carioca - "estou sozinho na rua de noite! e se alguém vier me assaltar?" - mas eles morrem de inanição, porque eu simplesmente não consigo parar de olhar pra essa casa. se eu conseguisse remover a fachada e olhar pra dentro dela, como quem olha pra um terrário ou fazenda de formigas ou uma casa de bonecas - o que eu veria? o cérebro diz: pessoas vivendo as suas próprias vidas, uma do lado da outra, cada uma com seus problemas e ambições. mas posso tocar nisso? posso sentir?

um pouco. 'a vida modo de usar' é um livro de georges perec que se passa inteiramente num prédio em paris, durante um único segundo às 19h57 de 23 de junho de 1975. cada um dos 99 capítulos se trata de um cômodo diferente do prédio naquele instante, descrevendo exaustivamente os objetos do cômodo e as histórias das pessoas que ali vivem e viveram.

num dos cômodos, um artista pinta o auto-retrato de um relojoeiro japonês, e somos apresentados à história de como o artista ganhou renome internacional com um projeto chamado 'névoa', em que ele simplesmente copiava quadros famosos e pintava uma névoa por cima. num banheiro, um casal engaja em 'carícias aquáticas', e o narrador nos conta como era a vida do casal quando os pais da moça ainda viviam com eles no apartamento. na escadaria, o filho do afinador de pianos lê um livro sobre um aventureiro belga, e somos apresentados não à história do menino, mas à história do aventureiro que ele lê. um empresário inglês monta um quebra-cabeça. uma criança remexe o álbum de fotos da mãe. um adolescente leva o lixo para fora.

falando assim pode parecer chato, mas não é; todo personagem acaba tendo uma boa história pra contar. às vezes as histórias são cheias de ação - como a do aventureiro belga, que parece a seção 'Biography' da página da wikipédia do Lawrence of Arabia da vida -, outras vezes são histórias conceitualmente interessantes - como a do pintor e seu método de 'névoa', e de muitos outros moradores que parecem ter sido escritos por borges -, algumas vezes as histórias tem um final feliz - como o casal que finalmente consegue viver em paz após a morte da sogra -, e diversas vezes as histórias são totalmente banais - como o menino que leva o lixo pra fora, enquanto pensa em como terminar uma história que escreve para o jornal da escola.

durante a leitura, às vezes eu tinha a sensação de que perec estava de sacanagem - "é impossível que tenha tanta gente interessante vivendo num único prédio" -, mas se você parar pra pensar, isso está mais próximo da realidade do que o contrário. se eu pudesse entrevistar todos os moradores dessa rua vazia em que continuo parado, é muito provável que eu também conseguisse arranjar uma multiplicidade de histórias, às vezes aventurescas, às vezes trágicas, às vezes banais. me lembro sempre de um amigo meu, que certo dia indo ao psicólogo descobriu que a secretária era... cantora de ópera nas horas vagas.

esse pensamento me deixa muito feliz, porque é uma prova de que o mundo é muito mais interessante do que parece - se a gente souber como olhar. se a gente parar de assumir (erroneamente) que sabe como as coisas funcionam, se a gente começar a buscar a visão da criança que vê não objetos mas borrões de cor. em jogos de 'hidden role' como mafia ou secret hitler, você olha pras pessoas ao redor da mesa e pensa 'será que ele é o traidor?'; com a visão de que estou falando, você olha pras pessoas na fila do ônibus e pensa: 'será que ela é uma cantora de ópera?'. afinal, os cantores de ópera tem que estar em algum lugar! (assim como os técnicos de elevador, as dançarinas do faustão, os compradores de ouro e os gandulas de handebol). look... around you.

juntando (1) com (2), temos: eu sou apenas mais uma pessoa que já existiu no planeta terra, e todas essas pessoas são interessantes de uma forma ou de outra. e aí?

sinceramente, tem um lado bom e um lado ruim (que também pode ser um lado bom, dependendo de como você vê):

o lado bom é que o mundo é legal e todo mundo tem algumas histórias pra contar. você faria bem em ouvi-las nem que seja pra perceber que sua experiência não é o centro da realidade (por mais impossível que isso possa parecer).

o lado ruim é que você não é especialmente interessante, e tudo que você sente/sentiu/sentirá já foi sentido por alguém (inclusive por você), e continuará sendo sentido por todos até o leito de morte do último homo sapiens. toda a experiência humana se repete ad infinitum, e isso pode soar muito deprimente.

o lado bom do lado ruim é que isso pode ser um consolo pra morte. nas palavras de marco aurélio,

"The longest amounts to the same as the shortest. [...] everything has always been the same, and keeps recurring, and it makes no difference whether you see the same things recur in a hundred years or two hundred, or in an infinite period." (book two, meditations)

às vezes essa explicação cola, às vezes não. às vezes a rua vazia me enche de tristeza e às vezes de esperança. às vezes sou mais um morador numa rua, às vezes um fantasma numa rua de fantasmas. ...danny phantom.


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